Tuesday, May 24, 2011

Solidão

"Úrsula perguntava-se se não seria preferível deitar-se de uma vez na sepultura e que lhe lançassem a terra por cima, e perguntava a Deus, sem medo, se realmente acreditava que as pessoas eram feitas de ferro para aguentar tantos sofrimentos e mortificações; e pergunta atrás pergunta ia atiçando a sua própria ofuscação e sentia uns desejos irreprimíveis de desatar a dizer asneiras como um forasteiro, conceder-se finalmente um momento de rebeldia, o momento tantas vezes ambicionado e outras tantas vezes adiado de enfiar a resignação por um certo sítio e mandar tudo à fava de uma vez por todas e despejar do coração os infinitos montões de palavras feias que tinha tido de engolir durante um século inteiro de conformação.
-Carago! - gritou.
Amaranta julgou que tinha sido mordida por um lacrau.
-Onde está? - perguntou alarmada.
-O quê?
-O bicho! - esclareceu Amaranta.
Úrsula pôs um dedo sobre o coração.
-Aqui - disse."




(em Cem Anos de Solidão, por Gabriel García Márquez)

1 comments:

  1. Este é um daqueles livros que nos deixam com um vazio dentro do peito, quando terminada a leitura. Como que uma saudade e pena de já não puderemos acompanhar as vidas daqueles inúmeros personagens que se cruzam e entrecruzam numa teia de solidão.

    Um beijo grande grande,

    Patrícia.

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