É mais das conversas. Disso tenho saudades. De conversar desde o nascer ao pôr do Sol, sobre tudo e sobre nada, e ficar contente com isso.
Caro,
A guerra continua, e estamos cá para travá-la. O pior é que o inimigo insiste em usar constantemente frases que queimam a pele e irritam os olhos até estarem tão vermelhos, que começam a chorar. E eu sinto falta é de receber um telefonema de quem entendia tudo e me explicava tudo.
Mas agora, caro, deixaram-me à minha mercê. Deram-me umas quantas armas de plástico, para não quebrarem, uma armadura, que mal me cabe no corpo, e atiraram-me para o meio da arena. Eu, meu caro, vejo-me com os olhos irritados das palavras, e a pele a queimar muito. Entorto o corpo, olho à minha volta e deixo-me ficar, a rodar no mesmo sítio, durante uns quantos minutos.
Então, meu caro, depois de os reconhecer a todos, endireito as costas e retalio com palavras também; é que eles são mais fortes que eu fisicamente, a minha única esperança são as palavras. Mas como "burros velhos que não aprendem línguas", ficam para ali a continuar a atirar sentenças insultuosas como setas, e não ouvem nem tentam compreender nada do que eu digo. Arranham-me a pele, deixam-me a cabeça cheia de bichos e os meus olhos com cataratas.
Eu, meu caro? Eu volto a entortar o corpo, mas desta vez a olhar para o chão com os olhos irritados, deixo a minha armadura e armas no meio da arena, e abandono-a a abanar a cabeça e a murmurar "não vale a pena".
Meu caro, vai ser sempre assim? É que estou tão cansada e não vejo a guerra a acabar, vejo-a a tomar formas e formas, a adaptar-se como um camaleão.
Mas vivo, não sobrevivo, vivo. Vivo com forças e defesas que não vêm nem de armas de plástico, nem de armaduras que mal me cabem no corpo. Antes vivia com a força dos telefonemas e explicações de quem passou pela guerra. Agora vivo com as palavras daquilo que eu sinto e acredito; eu sei, as palavras não vão acabar com a guerra, mas deixam-me consolada porque sei que não digo nem acredito no mesmo que diz o inimigo, não sou igual a ele... Não sou, pois não?
Caro, fui à praia hoje e ontem, e as gaivotas não souberam aliviar-me o espírito. Sinto-me um farrapo, e o pior é que sei que meio mundo se sente como eu.
Mas isto já passa. Respiro fundo umas duas ou três vezes, abro a janela, contemplo a Lua e acaba por hoje, por agora, por muito tempo. Prometes?
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